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Van Halen: Erupção

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No dia 6 de Outubro de 2020, o mundo da música ficou bem mais pequeno e silencioso com a morte de Edward Lodewijk Van Halen, que aos 65 anos perdia uma longa batalha contra o cancro. Ao longo de quatro décadas, o músico nascido na Holanda construiu uma carreira extraordinária marcada por uma visão singular, criando um novo dicionário para a linguagem da guitarra eléctrica. Quando, em 1978, o estreante Van Halen era editado pela Warner Bros., o mundo ajoelhava-se perante um novo Rei, pois a forma como víamos este instrumento nunca mais seria a mesma daí em diante. A reinvenção do rock’n’roll quase não acontecia de todo, uma vez que Van Halen começou por estudar piano clássico devido à influência da mãe, Eugenia Van Beers. Chegados a solo norte-americano, a família Van Halen não resistiu aos avanços do mundo novo e, tal como outros miúdos nessa idade, Beethoven era trocado pelos Beatles e o clássico dava lugar ao som moderno e desafiante dos Cream. Ao primeiro contacto com a guitarra, foi como se já tivesse nascido com ela nas mãos. A revolução começava a borbulhar, com o disco de 1978 a providenciar uma injecção de hard rock que colocava um ponto final numa geração liderada por Eric Clapton, Jimi Hendrix e Jimmy Page, dando aos jovens de então um novo herói da guitarra para admirar. O estilo de Van Halen era vanguardista, quase como se com isso dissesse que o futuro não reservava lugar para o blues rock de outrora. Até a estética da sua guitarra desafiava a imagem tradicional da Stratocaster, com o músico a criar um monstro chamado Frankenstrat. Numa das suas primeiras entrevistas, Edward falava do instrumento que abria um novo capítulo neste género musical: «Parece-se com uma Strat mas existe um sítio chamado Charvel Guitars onde constroem guitarras personalizadas», dizia. «O braço era lixo e o corpo estava para lá abandonado, e eu queria experimentar construir a minha própria guitarra para obter o som que desejava. Sempre escolhi a Stratocaster por causa da alavanca do vibrato, pois adoro o efeito que dá, então comprei o corpo por cinquenta dólares e o braço por noventa, para que os pudesse unir. Configurei-a com um pickup humbucker e um knob de volume, pintei-a como a queria ver e até grita!» De facto, foi um grito ouvido no mundo inteiro, com o acabamento escolhido a ecoar através de diferentes gerações para chegar aos ouvidos dos jovens guitarristas de hoje, todos eles familiarizados com a técnica de tapping imortalizada em Eruption, algo que nem o próprio Van Halen conseguia definir por palavras. «É algo que não consigo explicar», comentava em ’78. «Estava sentado no meu quarto, a beber uma cerveja, e lembrei-me de ver pessoas a esticar uma nota e a tocá-la uma só vez. Pensei que ninguém estava a ser capaz de capitalizar isso. Comecei a brincar à volta disso e percebi que era uma técnica totalmente diferente que mais ninguém fazia. É uma sonoridade totalmente diferente. Há quem ouça isso e nem perceba que é uma guitarra. Perguntam-me: ‘É um sintetizador? Um piano? O que é isso?» Para Van Halen, tratava-se sempre de fazer aquilo que todos pensavam não ser possível, fosse a mutação de guitarras que soavam como teclados, ou administrar esteroides em amplificadores para obter os tones majésticos que lhe são atribuídos. No final de contas, tudo o que precisamos de saber de Eddie Van Halen é que foi alguém que tocou de forma tão honesta e humilde quanto as suas origens, transformando a guitarra na voz do seu coração. «Não tento fazer nada que não seja interessante e diferente da última coisa que fiz», confessaria. «Não acho que tenha sido sempre bem sucedido, mas tento. Não componho músicas para mais ninguém que não eu.»

A influência de Van Halen é demasiado grande para ser medida e o seu repertório completo distinguiu-o com um lugar entre os melhores guitarristas que alguma vez pisaram a Terra. Do trabalho inicial desenvolvido ao lado de David Lee Roth às últimas investidas com Sammy Hagar como braço direito, Van Halen era um músico extraordinariamente talentoso e alguém dotado de uma autenticidade sonora que nunca será igualada.

SUPER STRAT

Eddie Van Halen não se limitou a encantar a comunidade de guitarristas com as técnicas que desenvolveu e com a sua capacidade para compor temas desafiantes. Era alguém que imprimia a sua atitude em tudo aquilo que fazia, e também as suas escolhas ao nível da amplificação e dos modelos de guitarra acabou por influenciar uma multitude de músicos, assim como os próprios fabricantes de instrumentos e amplificadores. Alguém tão autêntico como Van Halen nunca se poderia conformar com um modelo fabricado em massa, sendo imperativo encontrar uma guitarra com um carácter tão forte quanto o seu. A Stratocaster era incapaz de suportar a potência vulcânica de Van Halen, e as linhas da sua ES-335 dificilmente convenceriam alguém nos círculos do rock’n’roll. É então que Van Halen cria o seu próprio monstro, juntando peças de diferentes modelos para criar o que chamaria de Frankenstrat. A sua origem transformou-se num mito, tantas são as histórias que se contaram ao longo dos anos. Na capa do álbum de estreia dos Van Halen, editado em 1978, podemos ver o músico com uma guitarra que consistia de um corpo de uma Stratocaster, um braço da Charvel com trastes jumbo da Gibson aplicados com cola, e um humbucker PAF extraído da sua ES-335 controlado por um único potenciómetro e instalado na posição da ponte, também ela munida pelo vibrato da Stratocaster. O acabamento muito característico era conseguido com tinta acrílica para bicicletas, aplicando primeiro a base branca antes de proceder à aplicação aleatória de listras com fita isoladora para depois pintar tudo novamente com spray de cor preta. Ao remover a fita, a guitarra revelou elegantemente uma série de listras que seriam trabalhadas da mesma forma no modelo posterior da Frankenstrat, que introduzia também a cor vermelha. Quando, em 2011, Eddie Van Halen doou a Frankenstrat 2 ao Museu Smithsonian, comentou o paradeiro do modelo antecessor na publicação do museu. «Deixei de lhe dar uso regular», disse. «Sofreu muitos abusos durante as digressões intermináveis e nas gravações. Queria mostrar-lhe algum respeito e deixá-la sobreviver antes que ficasse completamente destruída. Para além disso, tornou-se uma guitarra muito conhecida, mais do que aquilo que alguma vez poderia sonhar, o que faz dela um alvo para ladrões, pelo que quis protegê-la. Ainda toco de vez em quando. Para mim tem um valor incalculável.»

Artigo publicado originalmente na edição de Dezembro de 2020 da Guitarrista.