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Tones Clássicos e como os reproduzir

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O mundo das guitarras assistiu estupefacto à evolução lépida do tone, que estabelecia as suas fundações com a primeira vaga de guitarristas de rock’n’roll que criava sons electrizantes e excitantemente barulhentos. Numa fase inicial, talvez ninguém conseguisse perceber que esta sonoridade jovial se tratava de algo arborescente e capaz de expandir infinitamente as suas ramificações, e o tone impactante de Chuck Berry dava origem aos monstros do rock dos anos ’70 e aos excessos vividos na década seguinte. A Guitarrista apresenta seis tones clássicos que poderás reproduzir com as nossas sugestões.

Queen
Keep Yourself Alive

Brian May influenciou uma lista incontável de guitarristas e estamos certos de que continuará a fazê-lo ao longo das próximas décadas, no entanto dificilmente surge alguém capaz de o igualar. O seu tone é uma espécie de lei não-escrita da música, que habilmente evoluiu não de um disco para o outro mas na própria música, uma vez que May se faz auxiliar dos controlos de volume e do selector de pickups para produzir um novo leque de sons no momento. O guitarrista dos Queen é daqueles que poderia criar algo novo e inesquecível com qualquer guitarra ou efeito, mas de forma a mantermos a simplicidade, iremos viajar até ao primeiro disco dos Queen. Editado em 1973, o trabalho homónimo da banda britânica abre com Keep Yourself Alive, um ritmo com uma espécie de aço crocante com o phaser a ajudar a obter um tone repleto de clareza e elasticidade. A forma como Brian May consegue fazê-lo não se limita ao uso de um pedal ou amplificador específico, uma vez que o guitarrista foi mais longe ao tomar as rédeas do circuito da guitarra eléctrica que o mesmo construiu: a icónica Red Special. Munida de um trio de pickups Burns Tri-Sonic e uma variedade de opções na forma de switches que permitem o acesso a sonoridades dentro e fora de fase, nem a Stratocaster ou a Les Paul conseguem obter este resultado único. Nesta faixa em particular, tanto o pickup instalado na posição do braço como o da ponte encontram-se fora de fase, e o tone singular com um toque metálico é alcançado com uma moeda de seis pence que actua como palheta. Juntem-lhe um booster nos agudos com um phaser vintage ligado a um Vox AC30 e a missão é cumprida.

The Rolling Stones
(I Can’t Get No) Satisfaction

O fuzz era um conceito que pairava no imaginário de alguns músicos há já algum tempo, quando finalmente em 1961 Grady Martin liga o seu baixo a um pré-amplificador defeituoso e produz uma distorção não desejada que se transformaria numa ideia auspiciosa. Vários nomes da música procuraram reproduzir este efeito fascinante, como seria o caso de Orville “Red” Rhodes, que construiu o que pode ser visto como um pedal de fuzz para os The Ventures, que em 1962 gravavam desta forma o tema instrumental The 2,000 Pound Bee, actuando como pano de fundo, ainda que perfeitamente audível, sob uma camada de sons limpos e brilhantes carregados de reverb. Contudo, foi apenas quando Glenn Snoddy levou o design do seu pedal à Gibson que o primeiro resultado comercial surgiu na forma do Maestro FZ-1 Fuzz-Tone. Cabia a Keith Richards, uma espécie de padrinho da Gibson que não só popularizava o modelo Les Paul como também o resgatava de um cenário de fracasso, inaugurar uma invenção sem precedentes com o tema introdutório do Lado B de Out Of Our Heads, editado em 1965. Ainda que Keith Richards não fosse o tipo de guitarrista que viesse a manifestar um amor intenso por pedais, o seu tone gerava uma mudança paradigmática na forma como os guitarristas iriam encontrar o seu próprio som. Para reproduzir o tone de (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones, sugerimos o fuzz da Electro-Harmonix cujo nome não engana: Satisfaction. Em Portugal poderá ser obtido por encomenda por um valor que não foge muito dos €50.

Prince
Bambi

Eis um guitarrista dotado de uma habilidade musical tão selvagem e excêntrica quanto a sua
personalidade. Em Bambi podemos ouvir um riff irresistível alimentado a colheres cheias de groove e bending, produzido por uma Telecaster MadCat Hohner aliada a uma cadeia de efeitos overdrive, distorção e fuzz, em que o segredo passa essencialmente por não perder o controlo dos detalhes. Sabe-se que a pedalboard de Prince incluía um Blues Driver ligado a um Turbo Distortion no modo 2 quando Bambi era incluída na setlist, pelo que o segredo pode estar aí.

Aerosmith
Walk This Way

Pode parecer estranho para os mais novos, mas o álbum Toys In The Attic cimentou a reputação crescente de uns Aerosmith que começavam a ser vistos como os novos Rolling Stones. As nove faixas que compõem aquele que foi o terceiro longa-duração da banda de Boston, projectam um filme muito especial protagonizado pelas guitarras de Joe Perry e Brad Whitford, que trocam entre si deliciosos riffs numa batalha disputada a seis cordas. Os Aerosmith tiveram a sua quota parte de êxitos mas nenhum outro é capaz de definir o tone quintessencial deste duo, isto claro, se ignorarmos a introdução com a talk box em Sweet Emotion. No entanto, principalmente nas prestações ao vivo decorridas ao longo da segunda metade da década de 1970, a talk box era também utilizada no riff de Walk This Way, algo que poderão sempre considerar assim que dominem o tone que colocou a banda na montra do rock’n’roll. A sonoridade de um dos riffs mais reconhecidos de sempre pode ser conseguida com um Junior ligado a um cabeço Ampeg V-2 de 60-watts com a secção de midrange discada nos 1000Hz, servindo-se do boost para que toda a informação musical permaneça num só local. Para o solo, poderão recorrer a um Maestro FZ-1S Fuzz-Tone.

The Beatles
Taxman

Esta composição de George Harrison tornou-se famosa devido ao solo tocado por Paul McCartney, evidenciando desta forma que o rock estava a mudar. A necessidade de explorar novos tones era algo de regime insaciável para os Beatles e as viagens de Harrison à Índia só contribuíram para que a banda de Liverpool aumentasse o seu vocabulário musical, algo que seria manifestado por Paul no solo. Sabe-se que McCartney utilizou a sua Epiphone Casino de 1962 para o registo de Taxman, tocando-a através de um Elpico AC-55, um amplificador da década de 1950 que estava em sua posse desde os seus 14 anos, originalmente desenvolvido para amplificar gira-discos. A agressividade de Paul McCartney fundia-se com os golpes rítmicos de George Harrison para principiar um tone que desempenharia um papel importantíssimo na evolução do rock.

Led Zeppelin
Whole Lotta Love

Tone: a pedra basilar da sonoridade que Jimmy Page desenvolveu ao serviço dos Led Zeppelin, e algo tão grandioso que pode ser visto como um manual de estudo no que à produção musical diz respeito. O som de Page era conseguido através de um posicionamento acertado de microfones, distribuindo o espaço estritamente necessário para que a guitarra aparecesse e detonasse o que quer que tivesse pela frente. Como o músico experimental que era, Whole Lotta Love foi alvo de uma mão cheia de truques para lhe conferir o groove irresistível que lhe conhecemos, groove esse que era manipulado por uma Gibson Les Paul por sua vez ligada à solidez de um Vox Super Beatle e de um Rickenbacker Transonic. A completar a configuração, qual maestro a liderar a orquestra, está o pedal Tone Bender. Para obter um resultado aproximado do original, podem utilizar um JHS Bender Fuzz.