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Surdina c/ Tó Trips (Ovar, 13/05/21)

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Foi perante uma plateia organizada e muito pontual que Tó Trips subiu ao palco do Centro de Arte de Ovar na companhia do realizador Rodrigo Areias para apresentar Surdina, um filme integrado na programação do Shortcutz e com banda sonora interpretada ao vivo por uma das metades que compõem Dead Combo. Quando as luzes finalmente baixam de intensidade até mergulharem no escuro, tudo o que fica para além da acção que se desenrola na tela é um canto com uma luz amena, onde Tó Trips se posiciona para interpretar aquilo que no início do evento descreveu como «o osso da banda sonora, com os temas tocados em guitarra».

À medida que conhecíamos a história de Isaque, um velho homem de um espaço rural que recebe a notícia de que a sua falecida mulher foi vista a fazer compras na feira, Tó Trips serve-se de uma Epiphone semi-hollow cujo acabamento apresenta tantas marcas da idade quanto os actores que passeiam pelo ecrã, acompanhando a narrativa com uma sonoridade inebriante e tão bem executada que não era de todo difícil desviar a atenção do filme para consumirmos vorazmente cada uma das notas que ecoavam pelo auditório, quais suspiros de fantasmas do passado.

Os pés de Tó Trips, muitas vezes chamados à acção para marcar o compasso, tinham à sua disposição uma pedalboard abastada de onde se destaca a função de loop, indispensável para acrescentar camadas numa textura mágica, e assim dar alma aos ritmos que embarcavam nesta aventura por entre o chilrear de pássaros, rosnados de feras e os cochichos da aldeia.

A moral da história diz-nos que o amor não escolhe idades, e só podemos esperar que todos os presentes, que abandonaram o seu lugar depois de uma salva de palmas colectiva dirigida a Tó Trips, tenham saído do Centro de Arte de Ovar um pouco mais apaixonados.

Fotografia: Ricardo Silva