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Stratocaster vs Les Paul: a origem e evolução de dois modelos icónicos

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«A versão da Fender e da Gibson da corrida que levaria Neil Armstrong e Buzz Aldrin a pisar a superfície lunar.»

A década de 1950 viu a arte prosperar. Alheia ao clima de medo de uma guerra nuclear que nunca chegou encontrava-se a guitarra, um instrumento que, tal como a Guerra Fria, dividia o mundo de uma forma que até poderíamos considerar bélica, disputando um mercado em forte expansão sem sinais de querer accionar o travão de segurança e evitar um conflito à escala global. A Guerra Fria viria a esmorecer em 1989, com a queda do Muro de Berlim e com o desmantelamento da União Soviética conseguinte. No mundo das guitarras, porém, a rivalidade entre Fender e Gibson mantinha-se activa com crescente fervor, originando o confronto entre Stratocaster e Les Paul, dois titãs omnipresentes nas gerações de heróis da guitarra que se seguiram, e que disputavam o início de uma rivalidade eterna que os transformaria em ícones da cultura popular. Este conflito atómico era, no entanto, vivido com expectativa, contrastando com o cenário de temor protagonizado por americanos, soviéticos e os mísseis de Cuba. Era uma competição acesa e nivelada mas também saudável; a versão da Fender e da Gibson da corrida que levaria Neil Armstrong e Buzz Aldrin a pisar a superfície lunar. Estavam encontrados os dois soldados perfeitos, aqueles cujo corpo seria tantas vezes reproduzido como se de um modelo da perfeição se tratasse, e que se encontravam entre as poucas invenções ou melhorias da época que resistiriam incólumes ao avanço tecnológico que definiria a segunda metade de um Séc. XX que eventualmente cederia o trono outrora ocupado pelas máquinas à era digital. Afinal de contas, qual seria o sentido de reformar um design tão confortável, prático, familiar e responsável por algumas das músicas mais belas, influentes e transformadoras que já tivemos o prazer de ouvir? Muitos outros tentaram reproduzir os passos que levaram os modelos Stratocaster e Les Paul à glória, e essas tentativas geraram sem dúvida alguma resultados e conquistas importantes, mas por mais que os novos instrumentos se vejam revestidos de um encanto vintage aliado a uma qualidade inigualável, dificilmente atingem o estatuto ou a marca intemporal alcançada pelos designs das equipas de Leo Fender e Ted McCarty.

Quantificar a influência que ambos os modelos tiveram no desenvolvimento e crescimento do universo musical é uma tarefa que poderá ter tanto de infinito como tem esta rivalidade, e poderemos incorrer a debates filosóficos sobre qual é, indiscutivelmente, a guitarra eléctrica mais importante da história. Talvez o leitor tenha já uma opinião formada, ou venha até a desenvolvê-la com o auxílio destas páginas, no entanto de uma coisa podemos ter a certeza: que tanto a Fender Stratocaster como a Gibson Les Paul são as referências mais poderosas que a música tem para oferecer; as jóias da coroa que adornou a cabeça de reis e rainhas que ao longo das últimas décadas governaram com mão de ferro uma cena musical que vive uma longa era dourada mas que é igualmente tida como morta por um rebanho de pessoas que ignoram o encanto electrificado do instrumento rei a favor de sons análogos criados por computadores.

Muitos músicos famosos fizeram destas guitarras a sua imagem de marca e os fabricantes não se importaram mesmo nada com isso. Jimi Hendrix, tido por muitos como o melhor guitarrista de todos os tempos, apadrinharia a Stratocaster, o que valeu uma mão cheia de pontos a favor do formato que a grande maioria das pessoas associa ao instrumento e que surge imediatamente na mente de qualquer criança que receba como desafio desenhar uma guitarra eléctrica. E porquê, podemos perguntar? A razão é simples e pode ser justificada com o facto da Stratocaster ter surgido numa altura em que o próprio rock’n’roll era uma novidade, sendo escolhida por guitarristas como Buddy Holly ou Hank Marvin, vanguardistas que procuravam levar a música governada por guitarras a novos territórios, fazendo com que o modelo da Fender aproveitasse a boleia e viesse a constituir, quase por acidente, o ADN do próprio rock.

Foi com a edição de ’57 que a Fender Stratocaster ficou mais refinada e consistente. A reedição deste modelo na década de 1980, caracterizada pelo braço em maple com um perfil V que ganhava cada vez mais expressão, permitiu ao fabricante sobreviver a um período crítico.
A Beast de Bernie Marsden é uma Gibson Les Paul de ’59 e uma das mais famosas em circulação. Aqueles que com ela tocaram descrevem a experiência como emocionante e selvagem, sendo um sonho que não está ao alcance de todos. A leitura da corrente contínua dos pickups regista 8.75k no humbucker do braço e 8.58k na ponte, precisamente a epítome dos PAF mais quentes.

A FENDER NA LIDERANÇA
Para a Gibson, o sucesso não era imediato nem tampouco contínuo, sendo necessária a chegada da década de 1970 e astros do rock como Jimmy Page, dos Led Zeppelin, para o ressurgimento da popularidade da Les Paul, criando uma onda sónica de tal dimensão que ainda hoje é possível surfá-la. As vendas da Les Paul, o modelo que a Gibson estreou no campo das solidbody, vendeu não muito mais do que 2.000 unidades entre 1952 e 1953, os dois primeiros anos de produção, e como não há ondas sem tempestade, os anos seguintes viam os números mergulhar na água que ainda procurava ganhar a forma e velocidade necessárias para produzir uma maravilha monstruosa. Com vendas anuais abaixo das 1.000 unidades, o ano de 1957 via o modelo Goldtop a registar apenas um quarto das vendas do apogeu de 1953 e a edição com acabamento Cherry Sunburst pouco fez para salvar a Gibson de um fracasso eminente, registando apenas 434 guitarras vendidas em 1958, ano em que se estreou. A batalha ainda mal tinha começado e a Les Paul já cumpria os critérios de estado vegetativo, com a ficha a ser eventualmente desligada depois de a Gibson reconduzir a sua atenção para o novo modelo SG, a estratégia bem-sucedida que a Gibson adoptou para se reerguer e mostrar que ainda estava em jogo com as cartas que escondia na manga. Dado o cenário que nos era dado a ver, ninguém adivinharia que a Les Paul renasceria das cinzas qual fénix para se tornar no modelo da Gibson mais popular de sempre, e os primeiros tiros eram disparados em 1964 no célebre The Ed Sullivan Show, o mesmo ano e o mesmo programa de televisão em que os Beatles se davam a conhecer pela primeira vez ao público consumista dos Estados Unidos. Só que não era John Lennon ou George Harrison que traziam a Les Paul de volta à tona da água; essa responsabilidade cabia a Keith Richards que, juntamente com os seus Rolling Stones, levava uma das bandas mais icónicas de sempre aos milhões de televisores a preto e branco que se acendiam religiosamente pelo país fora para que assim pudessem conhecer as próximas grandes estrelas da música e da cultura pop.

Quem também desempenhava um papel preponderante na popularidade da Les Paul era Lester William Polsfuss, o guitarrista que dava nome ao modelo da Gibson. Les Paul seria o primeiro músico a popularizar o som que conhecemos das guitarras solidbody, assim como Paul Bigsby teria o génio de criar a primeira interpretação moderna de uma guitarra eléctrica, chegando inclusivamente a inspirar Leo Fender a capitalizar uma ideia que não era exclusivamente sua e a reproduzi-la com sucesso, levando a Gibson a explorar a viabilidade da produção de um modelo solidbody inspirado nos desenhos de Les Paul. A abordagem da Gibson podia ser classificada de tradicional quando comparada com a abordagem da Fender, falhando em pensar fora da caixa e apresentar um produto que fosse diferente de tudo o resto que já havia sido construído. Encontravam-se numa zona de conforto da qual não queriam sair e Leo Fender retirava daí todas as vantagens possíveis, conseguindo não só criar um modelo de raiz como também produzi-lo em massa. Da mesma forma que a Ford motivava uma revolução sem precedentes no sector industrial, a Fender apresentava-se como uma marca do futuro que mostrava a quem quisesse ver como seria a guitarra eléctrica deste ponto em diante. Não tardou para que a Gibson percebesse que seria colocada fora de jogo caso falhasse em acompanhar o ritmo da concorrência.

Leo Fender pedia emprestado o design do headstock da guitarra de Paul Bigsby, uma influência que o fundador da Fender nunca procurou esconder. Também Bigsby já havia desenvolvido um vibrato antes da guitarra de Leo Fender ter surgido, pelo que a ligação da Stratocaster a Bigsby deu-se de uma forma natural. Quanto à configuração tradicional com um trio de pickups, tal acontecia como resposta ao modelo ES-5 da Gibson, que dispunha do mesmo número de captadores. A Stratocaster era produzida pela primeira vez em Abril de 1954, com o lote estreante de guitarras a ser identificado com o número de série 0100. Uma destas guitarras, com o número de série 0146, acabaria nas mãos de John Entwistle, dos The Who, sendo uma das primeiras encarnações conhecidas do modelo da Fender.

A Stratocaster original dispunha de um escudo branco de oito parafusos, sendo substituído em 1959 por um escudo de três camadas (branco, preto, branco) de celulóide com 11 parafusos, por sua vez trocado por um plástico mais estável devido a rachadelas, descoloração excessiva e encolhimento. O acabamento original consistia de um Sunburst de dois tons, mais precisamente amarelo e castanho escuro, com uma camada adicional de vermelho a ser acrescentada em 1958. O corpo seria construído em ash, ou freixo, até meados de 1956, altura em que a Fender optava por amieiro, uma madeira de peso médio que confere às guitarras uma sonoridade forte e encorpada, produzindo bons médios e graves, falhando um pouco apenas no controlo dos agudos. Já o freixo é uma madeira brilhante e ressonante, de graves firmes e com um sustain mais prolongado quando comparado com o amieiro. Leo Fender contrariava o largo vibrato de Paul Bigsby com um tremolo desenvolvido de baixo para cima e instalado dentro do corpo da guitarra, permitindo a utilização de até cinco molas de compressão. O braço consistia de uma única peça de maple, ou bordo, uma espécie de carvalho típica do Canadá e de outras regiões da América do Norte, e conhecida pelo seu peso, dureza e densidade, o que torna a sua presença no corpo de uma guitarra algo incomum. Do headstock, que a partir de 1965 seguiria a orientação mais ampla dos modelos Jaguar e Jazzmaster, brotavam seis tuners Kluson Deluxe.

Por sua vez, a estrutura da Les Paul assentava numa peça única de mogno para o braço que exibia os mesmos tuners Kluson Deluxe com botões keystone e adoptava inlays com desenho trapezoidal ao longo da escala de 22 trastes que viria a introduzir trastes Jumbo em 1959. Já nos controlos, dispunha de quatro potenciómetros Centralab 500K e dois capacitores de tone Sprague “bumblebee”. No decorrer de 1960, a Gibson aplicava mudanças extremas, como era o caso do acabamento Cherry Sunburst no tampo, que não desvanecia com os raios ultravioleta resultantes da exposição solar, perfil de braço mais fino e novos potenciómetros com cobertura metálica ao invés do dourado que prevaleceu até esse ano. Os carrilhões Kluson Deluxe ganhavam um anel de plástico e os capacitores de óleo e papel davam lugar a capas de cor preta. O corpo ganhava forma com uma peça única de mogno, um tipo de madeira denso e pesado caracterizado pelo som suave e quente que produz, assim como os graves ressonantes e agudos brilhantes, por sua vez ligada a um tampo em flamed maple. O hardware incluía uma ponte ajustável Tune-O-Matic ABR-1, stop tailpiece e capas PAF para os pickups humbucker. Apesar da transformação, o modelo Les Paul Standard não reunia consenso entre os guitarristas da América e era mesmo eliminado do catálogo da Gibson no ano da sua metamorfose, abandonando a zona de acção de cabeça baixa e ombros descaídos, e cedendo o seu lugar ao design que hoje conhecemos como SG.

«Enquanto que a Gibson Les Paul vê na edição de ’59 o seu apogeu, a Fender Stratocaster chegava ao topo da montanha alguns anos antes.»

O REERGUER DA LES PAUL
Este bem poderia ter sido o final da história da Les Paul, mas não se escrevem livros sofre ideias fracassadas e uma nova personagem entraria em cena para provocar uma reviravolta com suspense na dose certa para manter a narrativa da Les Paul viva o suficiente de forma a trilhar o caminho que a elevaria a estatuto de lenda. O nome dessa personagem era Eric Clapton, um jovem guitarrista britânico que se via na necessidade de adquirir uma nova guitarra para tocar com os Bluesbreakers de John Mayall, com quem viria a editar um disco no ano seguinte. As escolhas que Eric Clapton fez num certo dia do Verão de 1965 mudariam o curso da história do rock, desviando a atenção de gerações inteiras de guitarristas para um instrumento que havia sido destinado à sucata apenas cinco anos antes. Eric comprava uma Les Paul Standard de 1960 por 130 libras esterlinas (o equivalente a €15.000 nos dias de hoje) numa altura em que a média anual de salários era de apenas 750 libras. Em 1966 saía o disco de estreia de John Mayall & The Bluesbreakers, um registo em que Eric Clapton estabelecia o tone, expressão e dinâmicas que lhe são distinguidas, entregando uma sonoridade completa que tinha tanto de feroz como de atractiva, levando guitarristas de origens sortidas a beberem cada nota da guitarra de Clapton com a sede de um forasteiro alheio aos costumes berberes depois de uma longa travessia pelo deserto, para assim procurarem entender de onde vinha tal beleza sónica. Contudo, um olhar mais atento ao verso da capa de Blues Breakers poderia ter adiantado bastantes dicas, ou não estivesse Eric Clapton sentado ao fundo com um amplificador Marshall e a silhueta daquilo que à época se descrevia como “uma daquelas Les Pauls que já não se fabricam”. A guitarra em questão tratava-se de uma variante do modelo Sunburst, produzido pela Gibson entre 1958 e 1960. Furtada não muito depois, a guitarra nunca mais seria recuperada, tendo sido criado todo um mito em torno da sua curta mas influente existência. Embora a Gibson não tenha publicitado o modelo, a distribuidora britânica Selmer reservava algumas páginas da revista Melody Maker para dar a conhecer o seu catálogo. Num desses anúncios, podíamos ler o seguinte sobre a Les Paul: «Esta bela solidbody incorpora muitas das características incomuns da Gibson. Apresenta tampo em maple de acabamento dourado, e corpo e braço em mogno com Les Paul inscrito no headstock. A ponte combinada com tailpiece é outra estreia da Gibson, com o tailpiece a poder ser movido para cima ou para baixo para ajustar a tensão. A ponte Tune-O-Matic permite ajustar a acção das cordas e o seu comprimento individual.» O design da guitarra era descrito como um cutaway elegante com binding a simular marfim e o fingerboard era construído em rosewood com inlays feitos de Pearloid. Na electrónica, dois humbuckers «potentes», controlados por potenciómetros individuais de volume e tone, assim como um toggle switch de três posições. Mais tarde, Clapton descreveria a guitarra apelidada de Beano como a melhor Les Paul que já teve em sua posse, ainda que para alcançar essa posição tenha imposto algumas alterações da sua autoria, como é o caso dos tuners Kluson originais removidos a favor de um conjunto de Grovers, assim como as capas dos pickups que desapareciam para revelar as bobinas debaixo do capô (duplamente brancas na posição do braço e de cor preta na posição da ponte). Durante a primeira metade de 1966, Eric diria à revista Beat Instrumental: «Provavelmente já ouviram dizer que eu removi as capas dos meus pickups. Isto é algo que eu recomendo definitivamente a todos os guitarristas. As melhorias ao nível do som são inacreditáveis.»

A habilidade de Clapton em combinar o feedback com distorção controlada, assim como a técnica que o via servir-se engenhosamente do vibrato e de todo o seu sentido melódico, transcenderia o disco gravado com John Mayall para repetir a fórmula mágica numa outra banda que começava a ganhar forma: os Cream. Ao contrário do que aconteceria com o empreendimento anterior, que veria a colaboração entre Mayall e Clapton atingir a sexta posição nas tabelas de vendas para depois desvanecer e ver a sua reputação reabilitada anos mais tarde, os Cream representavam um sucesso imediato. É neste ponto da história que Clapton se vê desfalcado da sua Les Paul antes sequer de a poder estrear ao serviço da nova banda, transformando-se no espólio de algum larápio que, como o velho ditado diz, tirou proveito da ocasião. «Alguém a roubou do local de ensaios», explicava Eric ao Record Mirror. «Nunca a teria vendido. Valia cerca de 400 libras para mim. Era a única que eu tinha e a única com a qual tocava, pelo que agora tenho que pedir alguma guitarra emprestada. Gostava de obter outra Les Paul mas só existem seis ou sete no país.» Depois de desafiado pelo jornalista do Record Mirror a descrever o instrumento na esperança de ser recuperado, Eric utilizaria as seguintes palavras: «É uma Les Paul Standard com cinco ou seis anos, pequena e sólida. Tem um cutaway e possui um acabamento vermelho-dourado com tuners Grover. O verso da guitarra está muito riscado, com diversas queimaduras de cigarro na frente. A correia é grande, de couro preto com os nomes ‘Buddy Guy’, ‘Big Maceo’ e ‘Otis Rush’ inscritos.»

Clapton não brincava quando referia empréstimos, servindo-se mesmo da Les Paul equipada com ponte Bigsby de Keith Richards, aquando da estreia ao vivo dos Cream num festival em Windsor. Denny Alexander, da banda de abertura The Clayton Squares, emprestaria também a sua Les Paul Special double-cut com acabamento cereja. Eventualmente, quando os últimos dias de Agosto corriam a conta-gotas, Eric Clapton comprava uma ‘Burst a Andy Summers, tendo utilizado a guitarra na maior parte do registo dos temas que integram o primeiro lançamento dos Cream, Fresh Cream, assim como no single I Feel Free. Depois de partir o headstock no início de 1967 e do restauro não ter agradado Clapton, o músico abandonaria a Les Paul a favor de uma SG, ainda que adoptasse um modelo de ’58 para a digressão de despedida dos Cream, decorrida nos meses de Outubro e Novembro de 1968. A despedida estendia-se à Gibson, com Clapton a mostrar-se agora mais interessado em Stratocasters.
Embora só depois de Jimmy Page é que a Les Paul possa ser tida como um ícone do rock, nas mãos de Eric Clapton e naqueles que o antecederam já se assumia como uma guitarra capaz de produzir tones fantásticos, inclusivamente dentro dos reinos do jazz e do country, ou seja, bem antes de termos sido deliciados com o solo de guitarra irrepetível de Stairway To Heaven e numa fase anterior ao despoletar do fenómeno que foi o blues da década de 1960. Outros nomes contribuíram para a reputação que a Les Paul começava a ganhar, ainda que à velocidade de cruzeiro. A acção volta a centrar-se em John Mayall, que em 1967 editava A Hard Road. Agora com Clapton focado nos Cream, a responsabilidade da guitarra era entregue a Peter Green, que já havia substituído Clapton no passado e que integrava a formação original de uns Fleetwood Mac acabadinhos de sair do forno e que almejavam o lançamento do álbum de estreia para o ano seguinte, no qual também é possível ouvir a Les Paul. Michael Bloomfield e Paul Kossoff podem igualmente ser apontados, assim como Stone Mick Taylor, Gary Moore ou Joe Bonamassa, que se tornavam nomes de culto ao lado de um modelo de guitarra tão excepcional quanto as mãos que o tocaram.

Bernie Marsden, ex-guitarrista dos Whitesnake e proprietário de uma Les Paul Standard de ‘59, comenta a utilidade que a sua geração atribuía a uma guitarra naqueles tempos que aos olhos da nova geração parecem tão longínquos e inalcançáveis: «Dávamos mais valor ao que a guitarra era capaz de fazer quando a ligávamos a um amplificador. Não prestávamos atenção aos contornos ou à condição das cabeças… Aliás, a única coisa que substituíamos eram os tuners, por Grovers, e essa mudança tinha lugar quer precisássemos ou não, pois toda a gente dizia que eram melhores. Reconhecíamos que eram guitarras bonitas mas o importante era que soassem bem.» David Davidson, curador com 40 anos de experiência e chefe executivo do museu de guitarras Songbirds, diria na mesma entrevista à revista Guitarist que por cada um dos 36 modelos ‘Burst expostos viu-se obrigado a rejeitar outros três ou quatro para garantir que encontravam uma guitarra que combinasse as especificações que fazem desta guitarra um instrumento tão valioso. «Todas as nossas guitarras soam maravilhosamente bem, da forma como devem soar. Nunca compraríamos uma só para a exibir. Existem modelos de ’59 que soam melhor do que outros, e embora não seja cientista diria que tal se deve ao grão da madeira. Se olharem para o verso de uma Les Paul e virem que o grão apresenta uma forma redemoinhada, percebem que o grão do mogno não é tão liso e isso afecta o sustain do corpo. As notas simplesmente não viajam tão longe. Sei também que nem todos os pickups PAF foram produzidos da mesma forma, o que faz com que alguns PAF da Gibson não sejam bons.»

O modelo ‘Burst assistiu a um aumento exponencial do seu valor numa fase final da década de 1970, altura em que a procura por guitarras vintage atingia o seu clímax, passando dos €3,000 aos €10,000 num curto período de tempo, e ascendendo eventualmente a valores situados entre os €100,000 e os €300,000. Foi precisamente por este valor que a Les Paul de Paul Kossoff foi colocada à venda em tempos recentes, o que poderá até ser considerado uma pechincha se tivermos em consideração que a ‘Burst de Peter Green atingiu a marca do milhão de euros. A Les Paul sobreviveria às décadas de 1970 e 1980, um período que está para as guitarras como a Era Glaciar esteve para os dinossauros, uma vez que se vivia uma época de transformação e experimentos que viu inúmeras guitarras clássicas serem mutiladas ao receberem novos acabamentos e configurações de forma a produzirem melhores resultados ou simplesmente para ganharem um visual em concordância com os padrões ditados pela época.

UM FENÓMENO CHAMADO FENDER
Enquanto que a Gibson Les Paul vê na edição de ’59 o seu apogeu, a Fender Stratocaster chegava ao topo da montanha alguns anos antes. A edição lançada em 1954 era já um instrumento magnífico cuja abordagem era considerada à época como algo bastante original, mas foi em 1957 que o requinte embutiu o seu encanto nas especificações da guitarra, tornando-a mais consistente. O braço em maple do modelo de ’57 adoptava perfil V, característica que seria reproduzida nas reedições da Fender durante os primeiros anos da década de 1980, fazendo equipa com o fretboard em rosewood de ’62. Ainda que os braços não fossem perfeitos, mostravam-se num nível superior ao trabalho padrão exibido nas Stratocasters que eram construídas nesses tempos, traduzindo-se na pedra basilar que permitiu que a Fender continuasse activa na indústria. David Davidson, um veterano na venda de guitarras vintage, diz o seguinte sobre a edição de ’57 da Stratocaster: «Representa a tempestade perfeita. Por esta altura, a Fender tinha começado a substituir as partes em baquelite por alder, que era um produto mais barato, leve e abundante.» Entre os modelos deste ano, Davidson destaca a edição sunburst. «Tinha um dos melhores visuais», comenta. «Apresentava um tom âmbar magnífico e por esta altura a Fender já tinha chegado a um ponto em que conseguia trabalhar o verniz em camadas muito finas.» O braço com perfil V não era exclusivo de 1957 uma vez que já os podíamos encontrar em circulação dois anos antes, ainda que numa versão mais sútil e macia. Seria apenas em 1956 que uma versão mais endurecida do braço chegava ao mercado, ganhando ainda mais expressão aquando do arranque de 1957. O perfil V daria lugar à forma C ainda no final de ’57 para desgosto dos guitarristas que davam preferência ao posicionamento do polegar que o formato V permitia, assim como a disponibilização de um ponto central para o posicionamento da mão, uma característica procurada por muitos guitarristas de elite, como é o caso de Eric Clapton com as suas famosas Brownie e Blackie. A influência da madeira era evidente no timbre da Stratocaster, algo que se verificava com maior detalhe no pickup instalado na posição do braço. Tal era conseguido com o design da guitarra, que permitia encontrar uma sonoridade intermédia ou fora de fase, algo popularizado por Clapton e que levou outros guitarristas a instalar selectores de cinco posições, uma medida que a Fender adoptaria nos modelos de fábrica 20 anos depois, em 1977. Apesar do duelo feroz entre a Gibson e a Fender, as guitarras Gibson eram vistas por muitos como um instrumento para velhos e antiquados, enquanto que a Fender lutava contra o facto de ser considerada uma espécie de brinquedo, opinião que não caía bem em Leo Fender e que por isso procurava melhorar os seus instrumentos sem nunca descurar a busca pelo visual perfeito. O que torna então a edição de 1957 tão especial? Talvez o facto de terem sido construídas durante um período crucial da história dos Estados Unidos, em que muitos dos construtores faziam parte de uma geração que trabalhava com a mesma garra e empenho com que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Estamos a falar de trabalhadores que viviam em primeira mão uma revolução industrial, verificando-se também as consequências positivas da luta das mulheres pela emancipação, conquistando um novo papel no mundo do trabalho. O comum trabalhador não só era mais feliz e optimista como não escondia o orgulho nas suas habilidades.

EVOLUÇÃO LES PAUL

1952 | Lançada como Les Paul Model, apresentava acabamento dourado com ponte em barra e tailpiece ao estilo trapeze. Na electrónica dispunha de dois P-90 em tom creme.
1955 | O braço apresenta um ângulo mais raso para uma melhor execução, assim como uma ponte Tune-O-Matic ajustável ABR-1 com stop tailpiece.
1959 | Beleza inegável com acabamento sunburst, equipada com uma dupla de humbuckers PAF metalizados e flanqueados por anéis em tom creme.

EVOLUÇÃO STRATOCASTER

1955-58 | Em meados de 1956, o corpo adopta a madeira alder, enquanto que os pickups vêem os ímanes Alnico III substituídos por Alnico V. O braço com perfil V era também introduzido e desaparecia apenas em ’58, com a chegada do acabamento em Sunburst.
1959-63 | O ano de 1959 foi um ponto de viragem para a Stratocaster, vendo a chegada de fingerboards em rosewood e escudos com três camadas de celuloide. É também neste período que a Fender alarga a sua paleta de cores, inaugurando acabamentos como Lake Placid Blue, Fiesta Red, Sonic Blue e Surf Green.
1964-65 | Este foi um modelo de transição que viu os inlays em argila dar lugar ao pearloid, assim como os escudos que eram gradualmente substituídos por plástico branco. Os pickups ‘grey-bottom’ faziam também a sua estreia, mantendo os ímanes Alnico V. O logo presente no headstock deixava cair o estilo spaghetti.
1968-71 | No final da década de ’60, o headstock aumenta consideravelmente, tornando-se mais robusto. O corpo segue no mesmo sentido, adoptando uma estrutura mais pesada e com menos contornos. Os acabamentos ganham mais espessura e os braços com três parafusos aparecem em 1970.

CONFRONTO ÉPICO
Nos últimos 70 anos, tanto a Stratocaster como a Les Paul deram origem a um imenso catálogo de composições musicais e ficaram associadas a estilos cujo impacto ainda se sente actualmente, o que as qualifica como verdadeiros clássicos. A sua versatilidade de timbre foi e continua a ser para muitos guitarristas a escolha perfeita desde a década de 1950, vendo ao longo dos anos o seu potencial transformado e inspirando fabricantes a produzir variações de qualidade do modelo solidbody. Que o futuro seja tão inspirador quanto foi o passado destes dois gigantes da música!