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O grunge vive!

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Posso garantir que se não fosse pelos Nirvana, o meu percurso pela imprensa musical nunca teria acontecido. Não posso dizer que marquei presença no moshpit do Dramático de Cascais, em 1994, pois estou certo de que teria sido um ambiente perigoso e deslocado para um miúdo de cinco anos (já para não falar que nessa idade tinha outros interesses no topo da lista), mas mais tarde, quando me interessei pela escrita e criei a minha primeira revista com 13 anos, foram os Nirvana de Kurt Cobain que me forneceram o combustível para uma viagem que se prolonga há quase duas décadas. O meu contacto com a guitarra deu-se, naturalmente, depois da explosão do grunge, o que mesmo assim não evitou que fosse dos poucos miúdos da escola que, munido de camisas de flanela e um par de All Stars em avançado estado de decomposição, contrariasse qualquer que fosse a tendência musical da época com os grandes clássicos de rock dos anos 90, sempre com a beleza e simplicidade dos Nirvana na linha da frente. Aprendi uns powerchords, arranjei um pedal de distorção e o resto é história; e uma história bem divertida, por sinal.

O grunge abriu as portas a uma geração de músicos alienados pelo virtuosismo musical, provocando um fluxo gigantesco de composições que contrariavam o rock mainstream e cujos protagonistas encetavam uma cultura que rejeitava a então predominante mentalidade misógina a favor de um mundo musical mais inclusivo. O grunge não era só powerchords disfarçados de feedback e distorção; era um modo de vida que partilha muita da sua filosofia com o punk. Mais do que um movimento musical, o grunge ensinou-nos o que era a empatia, iluminando um caminho que muitos adolescentes julgavam estar remetido às trevas, sendo tristemente irónico o facto de alguns dos heróis do grunge terem colocado um termo às suas vidas pelas próprias mãos quando ao longo dos anos salvaram tantas outras vidas um pouco por todo o mundo. O grunge transformou vidas, sim, e mudou igualmente a guitarra para sempre, incentivando os demais estilos musicais a embarcar em jornadas experimentais para redefinir a sua identidade e sair de uma sombra que só perderia intensidade com a morte de Kurt Cobain, em Abril de 1994. O grunge vive!

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