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[Netflix] Héroes del Silencio: Uma Lenda do Rock

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Déjame
que yo no tengo la culpa de verte caer
Si yo no tengo la culpa de ver que
Entre dos tierras estás
Y no dejas aire que respirar
Entre dos tierras estás
Y no dejas aire que respirar

Os versos são do single Entre dos Tierras que catapultou definitivamente os Héroes del Silencio para o estrelato aquando do lançamento do segundo álbum Senderos de Traición (1990), mas até aí se chegar a banda tinha às costas seis anos de luta. Provincianos de Aragão, rodeados por um deserto, e recusando sempre deixarem as suas raízes para irem morar para a central Madrid, o quarteto de rock n’ roll mexeu-se inicialmente na chamada Movida Zaragozana ao entrarem em vários concursos que perderam sempre. A imprensa que os defendia não percebia como, mas a explicação não é muito difícil de dar: quem decidia os lugares cimeiros dos concursos estava pouco importado com aquele rock enegrecido com pitadas de goth e post-punk, os ouvidos estavam virados para o technopop que vendia fácil. Mais: a imagem de galã à Jim Morrison protagonizada pelo animal de palco que era Enrique Bunbury afastava os críticos mais intelectuais, porque olhavam para o vocalista como apenas um quebra-corações de miúdas de 15 anos e aquela banda, que era erradamente apontada como uma montagem comercial, não seria mais do que uma sensação de Verão que brevemente iria desaparecer.

A determinação de Enrique na voz e de Juan Valdivia na guitarra, juntamente com Joaquin Cardiel no baixo e Pedro Andreu na bateria, levar-lo-ias a conhecerem as pessoas certas que pegaram nas maquetes e foram bater às portas das editoras maiores. Mesmo assim foi duro, ninguém os queria – para os líderes da indústria, os Héroes del Silencio estavam ultrapassados. Mas certo dia, essas pessoas viram a loucura instalada nas ruas de Saragoça, algo que se repetia sempre que o grupo estava prestes a subir a um palco.

Da província negligenciada para o mundo, o silêncio tornou-se ruído ensurdecedor e até a Alemanha se rendeu a uma língua que desconhecia. Em êxtase, por toda a Europa se cantavam versos sem significado.

Toda esta história é sóbria e lindamente contada no há muito aguardado documentário Héroes. Silencio y Rock & Roll, com direcção de Alexis Morante, disponível na plataforma Netflix. Ao longo de pouco mais de 90 minutos, o quarteto e outras personalidades que acompanharam a banda (como o produtor Phil Manzanera dos Roxy Music) colocam-nos num ambiente familiar, como se ali estivéssemos a conversar com eles, a partilhar memórias que acabam também por ser nossas.

Numa narrativa regular, sem grandes exageros emotivos (tirando talvez a recordação da morte do tour manager e grande amigo Martín), o grupo, com entrevistas separadas, mostra-se calmo e sereno, mas nostálgico, ainda que sem melancolia negativa. Não é rockumentary de quartos de hotéis partidos, nem de trips toxicodependentes (que as houve em Inglaterra, diga-se), nem de lavagem de roupa suja (mesmo na hora da partida em 1996). Antes pelo contrário, é terno e, sem te aperceberes, vais vê-lo com um constante sorriso nos lábios, especialmente quando surgem imagens icónicas, quando percebes a fraternidade que alimentava aquela banda ou quando percebes que Enrique estava pouco interessado em falar à imprensa, não por arrogância mas por um certo desprezo como moeda de troca pelo que lhes tinham feito no passado e por uma grande timidez que, afinal, não existia em palco.

Como a própria carreira musical da banda, também não vais querer que este filme acabe. Vais querer sempre mais umas palavras quentes de Enrique, Juan, Joaquin e Pedro, talvez não tanto porque achas que ficou algo por contar mas porque não queres abandonar aquele ambiente criado por uma banda que canta em espanhol e que, mesmo com o suposto rock ultrapassado, vendeu mais de seis milhões de discos, inclusive crescendo mais quando acabaram do que quando estavam no activo.

Sem truques e obrigatório, Héroes. Silencio y Rock & Roll pode acabar em lágrimas, mais não seja por vermos emudecidos os olhos daqueles músicos quando subiram a um palco pela última vez em 2007, perante 80.000 pessoas, para comemorarem os 20 anos das primeiras gravações. Ano de 2021, um documentário e as quatro décadas à porta… Precisamos de muitas reticências para finalizar este pensamento, mas quem não sonha com o regresso dos Héroes del Silencio?