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Modelo OM de Ivan Rodrigues: Natureza Brasileira

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«A inspiração surgiu através de elementos do mundo moderno e contemporâneo ao mesmo tempo que se mostrava algo da natureza brasileira, em que as cores fossem fortes e evidentes e as espécies falam por si.»

Ivan Rodrigues é um luthier brasileiro que respira criatividade e reflecte toda uma identidade tribal nas suas construções ao servir-se de padrões geométricos e outros elementos presentes na natureza para captar um sentido de tribo que ao mesmo tempo se relaciona directamente com elementos do design moderno. Tal direcção é demonstrada com o modelo OM, uma acústica contemporânea equipada com flute holes e laterais duplas de mogno e jacarandá-da-baía que ganha vida como a grande maioria dos instrumentos saídos de oficinas de todo o mundo: através do pedido de um cliente que procura algo único.

«Neste caso o cliente já tinha três instrumentos encomendados comigo e queria inovar», relata Ivan Rodrigues em exclusivo à Guitarrista. «Pretendia desafiar-me a produzir algo mais moderno ao nível estético, principalmente com a roseta e os elementos fragmentados ou no headstock. Inicialmente disse-lhe que era algo que não queria tanto assim fazer pois gostava de me focar mais na parte acústica mas acabei por aceitar por se tratar de um desafio, mesmo. Esta guitarra tem fibra de carbono e o objectivo básico passava por incorporar a minha experiência na construção de instrumentos brasileiros como o bandolim ou de sete cordas, e por ser uma guitarra com cordas de aço que seria classificada como guitarra norte-americana, meio folk, quis aplicar-lhe o que aprendemos aqui no Brasil, aplicando X assimétrico no interior e usar uma espécie de leque harmónico ao estilo espanhol, ao mesmo tempo que incorporei elementos modernos como fibra de carbono de 1 milímetro e deixei as peças do leque harmónico curvas. Produzi então uma guitarra que reunisse toda uma série de elementos que estivessem a ser usados no mundo inteiro, como na Austrália ou no Canadá, como é o caso da roseta fragmentada ou do padrão de rectângulos no headstock, que é uma tendência mundial. Contudo, para tornar esta guitarra mais brasileira e autêntica voltámo-nos para as cores e para as espécies das árvores brasileiras, deixando mais evidentes os padrões que já se encontravam nos troncos.»

Sobre a abordagem ao desenho inicial, Ivan Rodrigues explica que optou por um «desenho de corpo que fosse tão autoral quanto seria também no interior, e a inspiração surgiu através de elementos do mundo moderno e contemporâneo ao mesmo tempo que se mostrava algo da natureza brasileira, em que as cores fossem fortes e evidentes, sem usar pigmentos ou pintura, com as espécies a falarem por si com bastante força e vigor».

«A selecção das madeiras foi refinada», comenta o luthier a respeito da escolha dos materiais. «Temos ébano exótico na escala, tampo em sitka spruce do Alasca com desenho especial, e jacarandá-da-baía com qualidade premium e bem avançada, com 20 anos de secagem, e o objectivo passava por montar algo tradicional como o tampo em sitka, que é muito aceite entre os guitarristas folk e blues, e com as ilhargas em jacarandá-da-baía para que se formasse este conjunto refinado e da forma que o cliente desejava.»

Embora Ivan Rodrigues contemplasse toda uma visão para a construção do modelo OM, deixou que o processo avançasse com abertura suficiente para inovar ao longo do caminho. «Sabia como seria o interior mas algumas coisas foram decididas no momento, como harmonizar o leque harmónico, o descanso do braço, a harmonia das cores (em que optei por usar a parte clara do jacarandá), entre outras coisas que procurei transmitir. No headstock, por exemplo, o canal de acesso ao ajuste do tensor tem um rectângulo com uma porta escondida em pau-brasil, assim como outras partes que foram acrescentadas propositadamente neste material. O acabamento em verniz foi todo feito em PU, ou seja, poliuretano, que tem uma estabilidade e resistência maior ao mesmo tempo que é muito fino e leve.»

Um instrumento que goza de todo um nível de atenção aos detalhes e de uma selecção de madeiras premium, não poderia desiludir na hora de ser tocado. «Faz lembrar a guitarra tradicional norte-americana associada ao blues, pois tem um som muito consistente», garante o luthier brasileiro. «Por ter mogno na composição, uma vez que tem laterais duplas com mogno e jacarandá, faz com que o sustain seja contínuo e consistente, com os braces no interior do tampo a proporcionar uma vibração para além do normal, que lembra um pouco as acústicas brasileiras de sete cordas mesmo sendo uma acústica com cordas de aço. As flute holes espalham muito o som, permitindo ouvir uma sonoridade mais cheia e espalhada, e em que se consegue perceber a acção da fibra de carbono, que potencializa o volume e a projecção. É uma guitarra muito especial no que toca ao som.»

«É a própria restrição dos materiais que possibilita a criação de algo novo que evolui. Pegamos nas coisas que foram feitas por acidente, acaso ou restrição e transformamos isso na nova tecnologia.»

A história do Brasil tem um impacto profundo na forma como os instrumentos de luthiers brasileiros chegam ao mercado. Quando questionado acerca da principal diferença entre a construção de instrumentos brasileiros e norte-americanos, Ivan Rodrigues não tem dúvidas: «A principal diferença é o método, com o americano mais focado em estabelecer um padrão e utilizar as máquinas como se o design e a estética fossem um espelho do instrumento que foi feito. Há uma preocupação em fazer sempre igual para conseguir uma linha de produção que mantém um padrão repetitivo. No caso brasileiro, isso quase que não é possível dada a escassez de ferramentas e o facto dos construtores não terem uma formação padrão como acontece nos Estados Unidos, em que há escolas a formar os profissionais. Conseguimos então uma situação mais livre, em que precisamos de nos adaptar e conseguir fazer as coisas de uma forma ou de outra. Os instrumentos acabam por receber uma identidade muito própria, o que faz com que a qualidade oscile muito. Nesse contexto moderno, tentamos pegar nessas limitações para criar a nossa força. Temos todo um histórico de adaptação e de tentar fazer as coisas de qualquer maneira possível, e que nos faz chegar a resultados muito bons que surpreendem. É isso que tento fazer e transmitir com as minhas guitarras, em que me sirvo de outras propostas de braces e f-holes para abrir as portas para outras possibilidades de construção dos instrumentos. É a própria restrição dos materiais que possibilita a criação de algo novo que evolui. Pegamos nas coisas que foram feitas por acidente, acaso ou restrição e transformamos isso na nova tecnologia, percebendo o que tem de especial em termos de física, química, vibração, ao mesmo tempo que catalogamos esses avanços para passarmos a produzir com intenção. A acústica brasileira, ou seja, a nossa proposta de construção de instrumentos, tem muita síntese. Por vezes, recebemos uma espécie de crítica internacional de que o Brasil não tem uma identidade e que é sempre uma mistura, mas ao mesmo tempo essa é a identidade autêntica do Brasil. É isso que há de novo, de especial e de nobre, e talvez estejamos abertos a observar sem preconceitos e julgamentos de tudo, tanto de um ponto de vista humano como material. Vemos as acústicas americanas, espanholas, australianas, ou seja, as coisas mais inovadoras, modernas e tecnológicas, e ao mesmo tempo conseguimos estar em contacto com elementos mais rústicos e muito tradicionais mas que conseguem alcançar algo muito surpreendente com bons resultados e que só seria possível pela própria destruição e limitação histórica e material. Mesmo tendo uma certa consciência do que aconteceu no Brasil, é um sentimento especial o facto de conseguirmos estar num meio-termo, observando o quadro geral do mundo mas também coisas específicas do nosso contexto, o que acaba por resultar nessa mistura. Ou seja, conseguimos pegar no melhor e mais relevante de todas as culturas e abraçamos todos sem qualquer discriminação, criando no final algo que seja forte e transmita essa emoção do calor humano, do ambiente natural… Tudo isso fica de certa forma presente naquilo que fazemos. É através dessa perspectiva que trabalho, sintetizando o que observei em várias culturas e ambientes, tanto históricos como materiais e humanos.»

Instagram @ivanrodrigues_luthier