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Fender Jaguar: Ascensão e queda

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Do surf rock dos Beach Boys ao punk rock dos Nirvana, a Jaguar é uma guitarra offset com muita história. O historiador Martin Kelly, co-autor de “Fender: The Golden Age 1946-1970”, partilhou alguns detalhes que moldaram o percurso do modelo icónico da Fender.

«Os offsets da Fender foram sempre a minha cena», começa por dizer. «Existia uma loja que visitava muitas vezes com o meu irmão, que importava guitarras dos Estados Unidos, e lembro-me de ter visto lá uma dúzia de Jaguars. Custavam entre 160 a 250 libras, com o modelo Shoreline Gold entre os mais caros.» Para se ter uma ideia do quanto a Jaguar valorizou nos últimos anos, foram recentemente listados dois modelos Shoreline Gold Jaguar de 1964 na página da Reverb, com os vendedores a pedir entre 12,000 e 14,000 libras.

Introduzida no mercado no ano de 1962, a Jaguar estava disponível por um preço ligeiramente maior do que a Stratocaster e a Telecaster, aproximando-se mais da Jazzmaster em termos de valor e especificações. «A Jazzmaster incluía um formato de headstock mais alargado», comenta Martin. «Não me acredito que isso previne o braço de empenar, como se diz. Creio apenas que o Leo [Fender] pretendia um design diferente. Era alguém que procurava sempre experimentar e incorporar algo de novo.»

«Com tantos elementos cromados, a Jaguar provavelmente seria muito chamativa na década de 1960», acrescenta. Com o design do headstock emprestado do Bass VI, o perfil do corpo da Jaguar também derivava das linhas da Jazzmaster. «O design do corpo foi desenvolvido com os músicos de jazz em mente, e foi pensada para ser tocada numa posição sentada», aponta Martin. «O desenho presente na patente da Jazzmaster é muito interessante pois ilustra uma pessoa a tocar sentada. Assim como a Jaguar, são guitarras que assentam naturalmente no teu colo, mas quando tocas o instrumento de pé, com uma correia, a ponte torna-se muito mais centralizada. Ao tocar em pé, não sentes que é tão compacta como uma Stratocaster ou uma Telecaster. A ergonomia é diferente.» A principal diferença entre os dois modelos, para além do comprimento de escala menor na Jaguar, são os pickups. «Os pickups da Jazzmaster podem soar muito melosos, algo que encaixa em certos estilos de música, mas havia quem pedisse algo com mais garra. Creio que o Leo procurava atribuir uma identidade própria a cada guitarra, e ainda que a Jaguar tenha sido copiada de outro instrumento, na sua mente isso significava ostentar novos pickups

«Os pickups da Jaguar foram desenvolvidos para reduzir ruído e alcançar uma sonoridade mais focada. Soa mais brilhante e leve do que uma Stratocaster, e tem garra quando precisas de levá-la a esse ponto. Os controlos são muito semelhantes aos da Jazzmaster, em que além de conseguires ligar e desligar os pickups individualmente, tens também um switch que aufere qualidade adicional ao tone.» Também emprestado da Jazzmaster, o sistema de tremolo flutuante da Jaguar é tido como um dos pontos altos do fabricante. «Adoro o tremolo da Jaguar e da Jazzmaster», diz Martin. «São muito subestimados. Penso que são muito melhores do que os da Stratocaster, e prefiro-os aos da Bigsby. É a ponte que motiva a procura da Jaguar.»

Entre os músicos mais conhecidos que escolheram a Jaguar como modelo de eleição, destaca-se Carl Wilson, dos Beach Boys. «Era inseparável da sua guitarra», recorda Martin. «Tinha uma branca com headstock a condizer e escudo em casca de tartaruga. Era linda.» A guitarra ficaria tão ligada à cultura do arranque da década de 1960 que ficou fora de moda à medida que os anos 70 se aproximavam. «A Fender fez o que pôde para levar a Jaguar a outros grupos de surf. Encaixa muito bem com essa era, onde bandas como os The Ventures ou os The Shadows utilizavam vestuário e equipamento a condizer. Era uma imagem forte. Contudo, no final dos anos 60, esta era uma imagem desactualizada. A Les Paul começava a tornar-se popular e o Jimi Hendrix tocava com uma Stratocaster. Também a Telecaster começava a reunir os seus seguidores. Os modelos offset estavam a morrer.»

Nos anos seguintes, a Jaguar continuou a ser disponibilizada em cores personalizadas, com os modelos para esquerdinos a custarem mais 10%. Entre os acabamentos que vigoravam no ano de 1973, quando a Jaguar representava o modelo mais dispendioso da marca, incluía-se Blond, Lake Placid Blue, Olympic White, Black, Candy Apple Red, Natural e Walnut. Não tardaria muito até ser descontinuada, desaparecendo completamente dos catálogos de venda no ano seguinte.

Tudo muda quando Kurt Cobain, dos Nirvana, embarca na intensiva digressão de Nevermind, confiando as notas de Smells Like Teen Spirit e Come As You Are a uma Fender Jaguar. Esta espécie de patrocínio, levado igualmente a cabo por outros músicos, fez com que o modelo Jaguar possa ser ainda hoje encontrado nas gamas American Professional, American Original, Player e Vintera – e claro, o modelo de assinatura do próprio Kurt Cobain. «A Jaguar está a viver os seus melhores dias», comenta Martin. «Nunca foram tão populares como agora. Até há bem pouco tempo, a Jaguar e a Jazzmaster não estavam associadas a músicos como a Strat e a Tele. No entanto, os guitarristas jovens tocam com ela, colocando-as num pedestal diferente.»

Quanto ao futuro, o historiador só pode especular: «Vão os jovens de hoje ter acesso a guitarras vintage? Vão dar importância suficiente a isso? Irá o mercado ficar saturado com modelos modernos? Creio que a Jaguar representa valor. Se gostas das guitarras dos anos 60 da Fender e tens um orçamento apertado, a Jaguar é uma boa compra. Hoje em dia podes comprar várias guitarras vintage por um valor acessível. Um modelo usado com acabamento Sunburst custa-te entre 2,500 a 3,000 libras.»