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15 Dicas úteis para começares a gravar em casa

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Saber gravar música em casa já era uma necessidade antes da pandemia ter virado as nossas vidas do avesso e de nos forçar a cortar relações com o mundo exterior. Milhares de pessoas, e cada uma à sua maneira, encontraram um escape na guitarra, soltando notas pelo simples prazer de tocar, se calhar até enquanto acompanham a música original cuspida pelo sistema de som, ou aproveitando a inspiração para compor temas da sua autoria e partilhá-los com um mundo que assiste impotente ao declínio da arte e da cultura, sectores injustamente vistos como dispensáveis na hora de prioritizar. Felizmente, nunca foi tão fácil como agora captar tones profissionais no conforto de casa sem acordar a vizinhança no processo, e a Guitarrista traz até vocês alguns conselhos essenciais para que aí desse lado possam obter os melhores resultados possíveis, independentemente do orçamento que têm à vossa disposição.

ANALISA O TEU EQUIPAMENTO
Quer te ligues a um computador portátil no teu quarto ou estejas a levar a arte do shredding a um setup extravagante montado na sala de estar, a tua guitarra precisa de estar no seu melhor. Corrigir a fraca entonação é algo a evitar durante o processo de mistura e se a entrada do cabo necessita de uma vista de olhos ou o sinal fica intermitente, até a gravação de uma demo básica se pode tornar numa experiência esgotante. Ainda que certas limitações possam por vezes criar uma atmosfera inspiradora, o instrumento que usas não deve, de forma alguma, ser um impedimento para a tua criatividade. Afina a guitarra, certifica-te de que a sujeitas a um período de aclimatação e volta a afiná-la novamente. O mesmo pode ser dito do restante equipamento, desde os cabos aos pedais de efeitos, passando pela interface ou amplificador. Ninguém gosta de ver um take perfeito arruinado por um ruído que se podia ter evitado.

ESCOLHE UMA INTERFACE
As interfaces de áudio são a melhor opção para ligares a tua guitarra a um computador ou tablet. Quanto menos equipamento necessitares, mais o teu orçamento te permitirá investir em outras coisas importantes, tais como bons cabos, colunas e guitarras. Uma interface básica incluirá entradas para pelo menos uma entrada jack de 3,5 mm e uma entrada XLR, com saídas para headphones e colunas. Se os teus planos incluem a gravação de voz ou de uma guitarra acústica, uma alimentação fantasma de 48v fará toda a diferença ao alargar o leque de opções de microfones. Algumas das interfaces mais económicas vêm inclusivamente com funcionalidades que regulam os níveis de forma automática e inteligente, para evitar o clipping ou os sinais mais silenciosos, causando distorção indesejada se o sinal de entrada está muito alto ou produzindo silvos quando o volume é aumentado para corresponder aos outros instrumentos.

Se vais confiar os tones eléctricos a sofwares ou plug-ins de modelação, talvez te espere um investimento maior do que apenas uns headphones e uma interface económica, isto porque acreditamos que a pirataria não fará parte das tuas opções, certo? Certo?? O mundo dos plugins é imenso, oferecendo uma variedade de sons para a qual terias que dedicar uma vida inteira a explorar.

Para gravações mais ambiciosas, talvez queiras considerar uma interface com saídas dedicadas ao re-amp, assim como saídas múltiplas para monitores e mais do que uma entrada. Uma interface de áudio básica pode custar-te à volta de €50, nova. Se mesmo assim o teu orçamento não te permitir ir tão longe, podes sempre visitar uma plataforma de venda de material de materiais usados e adquirir uma em segunda mão.

MONITORAMENTO E LATÊNCIA
Um bom monitoramento é vital para obter uma gravação de alta-qualidade. Para a mistura, precisas de obter as melhores colunas e headphones que o teu orçamento te permite comprar. Já para gravar, é essencial minimizar o delay entre o que estás a tocar e o que estás a ouvir, sendo este o significado de latência. Alguns milésimos de segundo é quanto basta para atrapalhar os tempos e soar de uma forma pouco natural. Ao gravar num computador com recurso a plugins que fazem a modelação de amplificadores, quanto mais potência o teu processador tiver, melhor será o resultado. No entanto, se consideras que o teu computador não vai estar à altura, existem softwares, alguns deles gratuitos, que poderão ajudar a minimizar a latência antes do sinal chegar à interface de áudio.

RESPOSTAS DE IMPULSO
Alguns guitarristas profissionais já descobriram as respostas de impulso de simuladores de colunas e amplificadores há vários anos, dependendo desta tecnologia para as misturas ao vivo e em ambiente de estúdio. Basicamente, as respostas de impulso permitem recorrer a um microfone para captar a impressão digital sónica de um cabinet com a qualidade tridimensional que se consegue obter num espaço físico, e que seja indistinguível de uma gravação efectuada com um verdadeiro cabinet. As vantagens são óbvias, a começar pelas configurações que ficam automaticamente registadas e portanto consistentes, permitindo igualmente acesso a centenas de modelos por onde escolher, múltiplas opções virtuais de captação com microfones, e claro, uma incrível poupança monetária e maior portabilidade.

Como desvantagem podemos considerar a aprendizagem que perdemos com a experiência táctil que é trabalhar o som de uma sala, já para não falar do processo doloroso que é testar centenas de respostas de impulso. Existem plugins como o Two Notes’Torpedo Wall Of Sound que oferecem um teste grátis durante um período de 30 dias, sendo uma boa introdução a este mundo. Existem igualmente modeladores de pedais mais simples com respostas de impulso convincentes e que permitem carregar respostas de impulso de terceiros, que podes descarregar gratuitamente online ou mediante o pagamento de uma quantia razoável. Se o digital é melhor do que a experiência real? Em termos sónicos, por vezes é. Em termos de utilização e acessibilidade, é um “sim” redondo!

SAMPLE E BIT DEPTH
A resolução de áudio digital pode ser dividida em dois componentes: sample rate (taxa de amostragem) e bit depth (profundidade de bit). A taxa presente num CD, de 44.1kHz (44,100 samples por segundo) e a taxa comum dos vídeos de 48kHz são tidas como os valores base. Taxas mais altas, como as presentes no áudio HD, são múltiplos dos valores anteriormente mencionados, como 88.2kHz, 96kHz, 176.4kHz e 192kHz. Apesar das questões que o debate levanta, existem algumas vantagens audíveis nas opções 88.5kHz e 96kHz. Ao aventurarem-se com valores mais altos, entrarão em território dominado por banha da cobra. Quanto maior for a taxa de amostragem, mais espaço em disco as vossas gravações vão necessitar, e taxas de 44.1kHz e 48kHz servirão a maior parte dos vossos propósitos. Mas ao experimentar com taxas superiores, o vosso equipamento ou software pode demonstrar comportamentos diferentes. Já no que toca à profundidade do bit, ou a granularidade de cada sample, 16-bit não soa diferente ao ouvido humano mas recomenda-se trabalhar em 24-bit, pois grande parte dos conversores de analógico para digital operam neste nível.

ELIMINA O RUÍDO
Antes de dares início a uma gravação, certifica-te de que eliminaste o maior número possível de fontes de ruído. Isto inclui interruptores de regulação da intensidade da luz que influenciam particularmente o hum conhecido dos pickups, telemóveis e o monitor do computador. Move a tua guitarra para conheceres as posições e os ângulos em que obtém as condições mais favoráveis e as mais ruidosas. Procura por ruídos resultantes da ligação Terra e certifica-te que recebes a energia da mesma fonte, quer estejamos a falar do teu computador, pedais ou amplificador. Liga os diferentes cabos da tua interface e pedais, e fica atento a mudanças audíveis. Finalmente, não te esqueças de manter os cabos áudio e fontes de alimentação separados ou cruzados em ângulos retos para prevenir o ruído.

CONFIA NOS TEUS OUVIDOS
Todos nós conhecemos as histórias de como determinado tone foi criado e, ainda que tal possa proporcionar lições essenciais, estarmos conscientes do papel que as circunstâncias e a oportunidade exercem é algo crucial. Devemos recorrer às experiências de outros guitarristas como um ponto de partida ou solução quando nos falha a criatividade, mas é imperativo obter um som que nos pareça natural e com o qual nos sentimos confortáveis na hora de gravar. Para isso precisamos de saber confiar nos nossos ouvidos, pois será a nossa audição que nos vai dizer se estamos no caminho certo e se o resultado parece bem. Fica à vontade para pensar fora da caixa e conduzir as experiências necessárias até que os teus ouvidos fiquem satisfeitos. Mesmo que não chegues a um resultado que te agrade, pelo menos vais aprender algo, o que é bem melhor do que apenas copiar algo que já existe.

GRAVA ANTES QUE SEJA TARDE
Nenhum bom disco foi gravado enquanto o guitarrista esperava até ter dinheiro suficiente para comprar a sua guitarra de sonho. Na verdade, e tal como a história nos diz, são vários os discos que foram gravados com material em segunda mão ou equipamento a funcionar incorrectamente. Se tiveres uma grande ideia, o melhor é gravá-la no momento e aproveitar a inspiração, mesmo que isso signifique recorrer a uma guitarra da qual não gostes assim tanto ou uma sonoridade pré-definida do teu amplificador ou software que ainda não esteja no ponto, pois o teu equipamento não é mais do que um veículo para dar voz à tua criatividade. Poderás sempre melhorar as tuas composições numa fase posterior, quando tiveres à tua disposição o equipamento desejado, ainda que muitas vezes a dinâmica e o feeling sejam difíceis de reproduzir, mesmo quando a qualidade de som é melhor.

VOLUME
O sinal deve ser o mais limpo possível e o nível de input da tua interface não pode fazer clipping. Como o input directo da guitarra é altamente dinâmico, o nível de input deve ser regulado de forma a que nem os teus acessos violentos nas seis cordas originem clipping. Os pedais de boost podem cumprir a sua função ao saturar um amplificador a válvulas mas ao mesmo tempo poderão sobrecarregar a memória da interface de uma forma prejudicial. Nada como testar primeiro e veres como o teu equipamento se comporta. Já os plugins e aplicações vêm preparados para uma gama dinâmica ampla e níveis de input relativamente baixos, pelo que deves procurar manter o pico abaixo de -10dBFS. Presta também atenção à diferença de volumes entre tones, pois um tone com distorção e um tone limpo devem ter um volume proporcional. A distorção digital pode igualmente ser evitada mantendo os picos abaixo do clipping.

OS LIMITES DA DISTORÇÃO
É essencial conheceres os limites dos teus efeitos e para isso precisas de errar até encontrares uma fórmula vencedora. Isto significa puxar pela distorção até perceberes onde termina a resposta linear, algo que só deves fazer com protecções nos ouvidos, pois não é nada bom quando um amplificador te dá mais do que aquilo que esperas. Podes conseguir uma boa distorção através de pedais, pré-amplificadores e outro tipo de equipamento com função de amplificação. Explora mas não te esqueças de proteger os ouvidos.

O MUNDO FANTÁSTICO DOS PEDAIS
Os pedais são uma fonte de ruídos que podem prejudicar o teu tone e não há necessidade de complicar uma jornada eléctrica tão simples como é a ligação entre os teus pickups e o conversor A/D. Mantém a cadeia de gravação de sinal o mais simples possível para não perderes o ímpeto criativo. Por outro lado, os pedais são um universo divertido que podem conduzir as tuas gravações em direcções completamente diferentes.

COMPRESSÃO
Um compressor, seja na forma de um pedal ou de um plugin, poderá ter um efeito importante na tua música dependendo da forma como actua, pois tanto pode adicionar uma dentada extra ao teu som como pode emagrecer ritmos robustos e retirar-lhes um pouco de vida. Se não te sentes suficientemente à vontade com a compressão, procura trabalhar com o mínimo de funções possível até te sentires confortável. Quanto mais distorção usares, menos diferença fará a compressão, pois a distorção reduz a gama dinâmica, e se utilizares um pedal de compressão durante a gravação, não a conseguirás reverter mais tarde.

TEMPO LIMITADO
Com os catálogos virtuais a oferecerem uma infinidade de tones, poderás perder-te num processo interminável de indecisão e frustração. Poupa a tua energia mental definindo limites quanto ao tempo que irás dispensar a programar um amplificador e simplifica tudo de forma a que o teu tone seja eficiente e possas depositar a tua confiança no som alcançado. Talvez estas limitações possam resultar num rasgo de inspiração que não conseguirias de outra forma.

DOUBLE-TRACKING
Considera gravar um novo take depois de teres a certeza de que o take principal está pronto. Fazer double-tracking poderá ajudar o teu tema a ganhar mais versatilidade e criar mais oportunidades no campo da criatividade.

CONFORTO
Gravar num ambiente relaxado irá permitir tomar decisões criativas e definitivas. O teu conforto é o mais importante no meio de todas estas dicas, e deves consegui-lo não só com a guitarra e restante equipamento, mas com a própria iluminação, incensos e objectos. A forma como te sentes será revelada nas tuas gravações e uma vez eliminada a pressão poderás conseguir resultados surpreendentes.